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patricia chueke & daniel jablosnki
(duo show)
Por que sorrimos em nossos retratos?
galeria Tropigalpão, RJ
22 a 26 de out de 2025

Por que sorrimos em nossos retratos?

por Ulisses Carrilho

 

Por que sorrimos em nossos retratos? é uma exposição que enfrenta a questão do retrato, pergunta antecipada em seu título. Não como gênero estabilizado, mas o retrato como dispositivo de produção: presença e ausência. Tal pergunta, com sorte, pode vir a acender uma pulsão crítica em torno das imagens no mundo que partilhamos. Na vida contemporânea, a fotografia é a técnica responsável pela fabricação de intimidades nas vidas particulares, mas também dos ritos de oficialidade das nações. Reveladas em nossas

imagens, estão vida privada e alegoria pública: aqui, de modo propositado, confundem-se irremediavelmente, num misto de galeria e estúdio fotográfico extemporâneo, uma exposição que não pretende ser um gesto definitivo, mas um espaço vacilante. Como nas imagens e nos sujeitos que aqui encontramos, há uma história em retomada no gesto que

emerge do intenso agora.

 

A exposição nasce do encontro de duas poéticas distintas e, ao mesmo tempo,

atravessadas por uma relação íntima: partilham a mesma família. Identidade e diferença se revelam aqui, na escolha dos meios com os quais trabalham a própria ideia do retrato.

Daniel Jablonski, artista pesquisador, investiga fotografias históricas do período imperial brasileiro, para analisar seu fundo: a construção, por meio de uma composição de plantas ornamentais, do imaginário de um país-floresta. Já Patricia Chueke parte de retratos de seus amigos e familiares para produzir camadas de pintura; tal adição, no entanto, parece subtrair, aglutinar. Figura e fundo se fundem por ora. Entre pintura e fotografia, entre imagem técnica e imagem artística, instala-se um espaço indecidível, rico — o espaço de representação dos sujeitos, sorridentes ou não, que constroem nossas identidades, dos retratos mais oficiais à intimidade de nossos álbuns de família. Ambos interrogam o que resta quando a imagem se descola do corpo, dão a ver um cenário persiste tão ou mais eloquente que os sujeitos — por ora não sabemos mais distinguir figura de fundo, pessoa de paisagem, Brasil de ficção. O encontro entre os dois artistas se dá nesse terreno híbrido, em que o retrato não é tanto um gênero, mas uma forma de pensar o humano – quiçá da impossibilidade de separá-lo de seu entorno. Entre a mise-en-scène fotográfica e a abstração pictórica, instala-se uma zona ambígua.

Em A vida interior das plantas de interior (2025), Jablonski transformou a galeria em estúdio fotográfico “fora do tempo” pela primeira vez. Partindo de retratos imperiais de Dom Pedro II e Teresa Cristina, fotografados por Joaquim Insley Pacheco em 1883, reimagina os cenários

vegetais em vídeo, colagens e instalações. A pesquisa se apoia em botânica, história e tecnologias de preservação de plantas, evidenciando a substituição da natureza pela sua imagem. Cada gesto de Jablonski — desde a escolha de plantas estabilizadas até o embalsamamento que cria volumes e permanência — conjuga pesquisa histórica e operação estética, conjugando esses objetos e organismos, reconhecendo neles ficções de

memória e poder. Em tais retratos, Jablonski tira o foco os corpos das fotografias imperiais.

A natureza postiça deste fundo é desconstruída graças a uma pesquisa que identificou a origem dos espécimes vegetais usados na criação de um ambiente tropical – são muitas as

origens. O que resta é uma mise-en-scène esvaziada. Diante da miscelânea de plantas que enquadravam o casal, o que se vê, acima de tudo, é o limbo entre natureza e civilização que o colonialismo forjou na sua invenção da paisagem. Essas plantas revelam-se um estudo de caso do absurdo que alicerça nosso sistema.

Nas obras de Patricia Chueke, o gesto é inverso, mas não menos ambíguo. A artista parte de fotografias digitais de seu arquivo pessoal – festas, encontros, momentos triviais. Tais retratos – fotografias – transformam-se em retratos – pintura – por meio da sobreposição de

camadas de cor. Ao adicionar, no entanto, subtrai; ao acumular, dissolve. Figura e fundo se confundem, e o que era lembrança íntima torna-se paisagem de afetos difusa, vibrando entre o visível e o ausente. Nestas imagens, também, precisamos mirar os “fundos” reconhecê-los como parte que ora informa, ora transforma, ora deforma a figura.

Há uma recusa da narrativa explícita — como se a artista preferisse deixar o mistério em suspenso, em vez de entregá-lo à evidência. O gesto pictórico, farto em cor, mas também

silencioso, recobre a superfície e a história, aglutinando o pessoal e o coletivo, o passado e o presente. Cor, gesto e acúmulo de camadas traduzem alguma intimidade, carregam ainda

assim algum mistério e parecem provocar-nos à fabulação – vemos festas e encontros, um regozijo com o doméstico, com o famliar.

A exposição definitivamente não se ancora num fio genealógico, mas tampouco o subverte — joga, brinca com ele. E é nessa fabulação de linhagens, que as obras revelam o que há

de íntimo também na história, e o que há de público também na vida privada.

Tal percepção, arrisco, faz eco ao título desta mostra, escolhido pela dupla de artistas e tomado por empréstimo do livro “Pourquoi sourit-on en photographie?”2, que investiga a genealogia do sorriso como gesto aprendido e codificado pela cultura visual moderna. A evocação desloca o título do campo da pergunta histórica para o da interrogação ética e

política: por que sorrimos — ainda — em nossos retratos? A questão atravessa o espaço expositivo como uma provocação dirigida ao público, antecedendo o encontro com as obras e convidando à consciência do próprio olhar. Num tempo saturado de imagens, em que a

expressão do contentamento se tornou norma e performance, o sorriso talvez já não denote alegria, mas adesão, cinismo, ou mesmo uma recusa involuntária a encarar o absurdo. A epígrafe de Bertolt Brecht, que pergunta “que tempos são esses em que falar das flores parece um crime?”, faz vibrar menos uma tensão que a mostra provoca, mas seu próprio pano de fundo, como ambos os artistas nos provocam com seus corpos de obra.

Deliberadamente, elegemos não criar grandes partidos argumentativos e confiar no diálogo, nas perguntas, na sensibilidade: é radical o encontro com a obra de arte. Dos fundos às figuras, dos sorrisos aos retratos: cada peça, guarda consigo – devolvem-nos todas,

insubordinadamente – a possibilidade de nos vermos nelas.

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